Racismo ambiental: você sabe o que é? | Reconsaj Noticias


O racismo ambiental é uma forma de racismo sistêmico – o racismo já incorporado na nossa sociedade – em que as comunidades negras são desproporcionalmente sobrecarregadas com riscos à saúde por meio de políticas e práticas que as obrigam a viver próximas a fontes de resíduos tóxicos, como esgotos, minas, aterros sanitários, usinas de energia, principais estradas e emissores de material particulado no ar. Como resultado, essas comunidades sofrem maiores índices de problemas de saúde decorrentes de poluentes perigosos.
Como surgiu o termo?
Foi o líder afro-americano dos direitos civis Benjamin Chavis que cunhou o termo “racismo ambiental” em 1982, descrevendo-o como “discriminação racial na formulação de políticas ambientais, na aplicação de regulamentos e leis, o direcionamento deliberado de comunidades de cor para instalações de resíduos tóxicos, a sanção oficial da presença ameaçadora de venenos e poluentes em nossas comunidades, e a história de exclusão de pessoas de cor da liderança dos movimentos ecológicos”.
Ou seja, o termo refere-se às formas desiguais pelas quais etnias vulnerabilizadas sofrem externalidades negativas e fenômenos ambientais prejudiciais devido à sua exclusão dos locais de tomada de decisão.
“Há um senso comum, e até um mito criado em torno da questão ambiental, de que ela nos atinge a todos igualmente”, conta Marcos Bernardino de Carvalho, professor de Gestão Ambiental da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, ao explicar a origem do termo.
Na prática, o racismo ambiental pode assumir muitas formas, desde locais de trabalho com regulamentações de saúde precárias até a localização de usinas a carvão próximas a comunidades predominantemente não brancas. Isso pode significar cidadãos bebendo águas subterrâneas contaminadas ou sendo educados em prédios decadentes com problemas de amianto.
Quem é atingido?


Muitos desses problemas enfrentam as comunidades de baixa renda como um todo, mas a raça costuma ser um indicador mais confiável da proximidade da poluição. Apesar de ser um termo que denuncia uma violação de direitos, sua definição e aplicação ainda não são totalmente aceitas pelas implicações sociais e históricas que traz consigo.
O professor ilustra que, em países como o Brasil, não se trata de uma coincidência que as populações negras, por exemplo, sejam as mais afetadas pelos danos ambientais. Devido ao seu passado colonial, com estruturas sociais baseadas na escravização de pessoas negras, estas passaram a ser invisibilizadas, o processo de alforria foi realizado sem nenhum tipo de reparação dos danos causados pela escravidão ou integração dos libertos.
No contexto global, o racismo ambiental também se refere à relação ecológica desfavorável entre o Norte e o Sul causada pelo colonialismo, neoliberalismo e globalização.
No Brasil, o conceito de racismo ambiental se estendeu a outros povos, como os indígenas. Áreas indígenas não demarcadas, favelas, áreas com alto risco de deslizamento, lixões e áreas urbanas sem saneamento básico são exemplos típicos de populações habitadas pelo racismo ambiental.
A globalização aumentou a oportunidade para o racismo ambiental em escala internacional. Refere-se ao despejo de poluentes, como lixo eletrônico, no sul global, onde as leis de segurança e as práticas ambientais são mais frouxas. Mais de 44 milhões de toneladas de lixo eletrônico foram geradas globalmente em 2017 – 6kg para cada pessoa no planeta.
O que podemos fazer?
O movimento de justiça ambiental trabalha para aumentar a conscientização sobre as dificuldades das populações vulneráveis ​​por meio de estudos acadêmicos, campanhas de pressão da mídia e ativismo público. Movimentos de base fazem uso das mídias sociais, juntamente com desobediência civil – uma forma de protesto político de forma pacífica – e marchas, para fazer ouvir suas opiniões.
A União Europeia, onde a maioria dos casos documentados de racismo ambiental afeta o povo cigano, financiou iniciativas como o projeto Environmental Justice Organisations, Liabilities and Trade, que decorreu de 2011 a 2015 e reuniu cientistas e decisores políticos de 20 países em todo o mundo a avançar no caso da justiça ambiental. No entanto, à medida que as leis ambientais se tornam mais rígidas nos países desenvolvidos, muitos temem que as atividades se desloquem para o sul global.
O racismo ambiental faz parte do quadro mais amplo do racismo sistêmico, que deve ser combatido para criar uma sociedade mais justa.

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